sexta-feira, 22 de abril de 2011

Em rota de fuga


Ao sintonizar alguns canais de tv, ontem à noite, deparei-me com o programa da apresentadora Oprah Winfrey, que chamou a minha atenção, e me levou a assisti-lo. Tratava-se de uma entrevista com Susan LeFevre, uma norte-americana, branca, de pouco mais de cinquenta anos, que conseguiu permanecer, por 32 anos, foragida da polícia. Ela havia sido condenada a 20 anos de reclusão sob a acusação de consumo e tráfico de drogas. A acusada sempre alegou ser inocente, justificando-se que portava uma pequena quantidade de heroína, e que apenas vendia drogas aos amigos para poder manter o seu próprio vício.

Na época em que fora presa, Susan obteve garantias verbais de seu advogado de que conseguiria uma liberdade condicional, caso declarasse ser culpada. Porém, isto não ocorreu e ela foi condenada à pena máxima de 20 anos. Sua família não apelou contra a decisão judicial e afastou-se dela. Após 6 meses na prisão, ela recebeu a visita inesperada de seu avô, um homem bastante íntegro segundo o seu depoimento, que a convenceu a fugir da prisão mediante um plano que ele mesmo havia arquitetado. E assim se sucedeu. Ela conseguiu escapar da prisão, considerada de segurança média, e rumou para Califórnia, na costa oposta à sua residência natal. Ela passou a se chamar Marie Walsh.

Durante cerca de 8 anos, ela usou números incorretos da previdência social para se empregar, mudando constantemente de funções. Ela pôde se libertar dos vícios e passou a viver uma vida íntegra e regrada. Sequer ela pôde sofrer uma multa de trânsito. Tampouco ela pôde comparecer ao enterro de sua mãe.

Então, ela conheceu Alan que se tornou seu marido e pai de seus 3 filhos. Eles construíram uma família estável, harmoniosa. Marie manteve o seu segredo guardado e não o compartilhou com ninguém. Sua família original sabia de sua fuga mas, por medida de segurança, mantiveram-se totalmente afastados.

Sobre este longo período de fuga, detive a minha reflexão. Esta mulher fugiu de sua história pessoal por 32 anos. E sempre com a sensação de que, logo ali, na esquina, alguém a estivesse espreitando.

No entanto, em uma manhã, ela foi suspreendida pela polícia federal. Ela estava simplesmente cuidando das flores de seu jardim. Todo o seu segredo fora revelado. Seu marido e filhos ficaram estarrecidos, mas aos poucos, puderam apoiá-la. Ela permaneceu na prisão por 13 meses quando finalmente foi absolvida. A Suprema Corte americana considerou que ela estaria isenta de cumprir o total da pena por ter conseguido manter sua idoneidade moral por 32 anos.

Minha reflexão sobre esta história durou um bom tempo. Fiquei me perguntando se esta trajetória poderia ser uma alegoria para o que fazemos, muitas vezes, em nossas vidas. Muitos de nós somos fugitivos de nossas próprias histórias antigas, que nos perseguem e nos atormentam e com as quais às vezes não conseguimos lidar. Podemos escolher encará-las, enfrentá-las e dar um novo significado para todos os acontecimentos. Ou, por outro lado, podemos continuar em rota de fuga permanente. Como animais que temem o ataque do predador. Tudo isto à custa de elevadas taxas de cortisol, uso abusivo de soníferos e antidepressivos, álcool etc.

E, por vezes, quando o segredo é revelado, perde-se o rumo e o sentido da vida. Deixa de existir a necessidade de fugir. Foi o que percebi no olhar da americana Marie. Ela está livre, absolvida, porém amedrontada e perdida. De uma certa forma, ele teve de encontrar estratégias e forças internas pra seguir fugindo. E agora surge um grande vazio, o que poderia ser um imenso alívio. Como se ela precisasse colocar algo no lugar.

Talvez seja justamente isto que fazemos. Como se não fosse possível viver sem as algemas que nos prendem a um passado longínquo. Como se não pudéssemos ser verdadeiramente livres e conduzir nossas próprias vidas.

domingo, 13 de março de 2011

Limiar da morte


No mês de fevereiro, fui literalmente lançada ao universo da morte e pude vivenciar com intensidade todas as suas particularidades. No período de três semanas, estive em três funerais, sendo o primeiro deles de uma irmã minha muito querida. Foi bastante difícil. Ela estava gravemente doente, há um pouco mais de um ano, porém, havia se recuperado razoavelmente. Então, de certa forma, fomos surpreendidos.
Pude perceber, ao longo dessas experiências, que pouco conheço sobre este limiar entre a vida e a morte. Muitas são as visões a respeito desta transição. Inúmeros são os questionamentos.
Hoje, fui ao crematório buscar as cinzas de minha irmã. Pode parecer mórbido para você. Ou talvez, de acordo com a sua crença, você julgue irrelevante a minha reflexão. Para mim, fui invadida por sentimentos múltiplos. Na verdade, desde o adoecimento dela, passei a me perguntar com mais freqüência sobre qual seria o verdadeiro sentido da vida. Qual o propósito de nascer, viver e morrer? Qual é o verdadeiro significado deste ciclo? Somos como as plantas? Somos parte de um plano pré-definido? Fazemos parte da História?
Ontem, vivi uma experiência que me causou um enorme estranhamento. Estive no velório de um bebê, que não chegou a nascer em nosso mundo físico. Ela faleceu no interior do ventre materno. Pode parecer contra a ordem natural das coisas. Ou talvez, não fosse necessário vir ao mundo terrestre para cumprir a sua missão. De fato, não sei dizer.
Apenas posso relatar que, ao retornar ao local do velório de minha irmã e ter de sair de lá com uma pequena sacola branca contendo os seus restos mortais, surgiu um grande silêncio dentro de mim. Como se eu pudesse acessar um espaço vazio do tamanho do universo. E eu precisasse preenchê-lo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A escrita como caminho


Estive afastada da escrita por um longo período. Motivos foram vários.
Escrever, para mim, é algo libertador. Porém, nos momentos em que me sinto mais acuada e angustiada não consigo escrever. É uma pena. Ainda vou conseguir dar vazão e expressão a todos estes sentimentos e pensamentos no momento de sua eclosão. Diria que a tormenta ainda não passou. O céu permanece nublado e chove com menor intensidade. Mas, já é possível diminuir a freqüência do uso do para-brisa. E, talvez, eu possa retomar o meu contato com a escrita.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Filmes em janeiro


De volta a São Paulo, fiz uma pequena pausa nas leituras e resolvi por em dia meus conteúdos cinematográficos. E, de certa forma, busquei um equilíbrio: pude assistir a três programas infantis (afinal meu filho de 8 anos está em férias!); e também vi três filmes para adultos, sendo um em dvd, o qual não havia assistido em 2010.
Puder dar boas risadas em algumas poucas cenas de “As Viagens de Gulliver”, mas o filme é um tanto confuso e em determinados momentos pude julgá-lo até politicamente incorreto, se é que ainda posso usar este termo. A verdade é que se busca uma contemporização do livro clássico, porém muito embasada nos clichês norte-americanos. Então, perde-se o encanto do antigo tema juvenil.
Também assisti ao “Mundo Encantado de Gigi”. Nele há uma certa poesia e sua temática oriental, onde prevalecem as virtudes e a sabedoria, é muito cativante. Porém o filme não empolga.
Por outro lado, vibrei com o novo desenho dos estúdios Disney. O título original é Tangled (Entrelaçados), traduzido no Brasil como: “Enrolados”, um termo mais próximo do discurso coloquial. Simplesmente, adorei! Com muita graça e leveza, o desenho conta a história de Rapunzel, levando-se em conta toda a magia e os mistérios que identificam a jornada desta heroína até que ela vença os seus temores mais arraigados e possa transformar-se em uma mulher. Encantei-me com as simbologias das luzes e das mandalas do sol, elementos tão presentes nas trajetórias de vários que ousaram romper com situações pré-estabelecidas e lançaram-se em aventuras, em busca de si mesmos. Por tudo isto e muito mais, o filme é precioso e certamente imperdível.
Voltando-me para o universo da cinematografia adulta (tenho dúvidas às vezes se há esta separação), pude ver 72 Horas (“Thе Next Three Days”), um filme de ação potente, cujo intento é o de te colocar na pele do personagem principal: um homem extremamente desesperado, em busca de libertar a sua esposa, acusada de homicídio (você assistirá ao filme sem saber ao certo se ela era a culpada), utilizando-se de todos os recursos existentes. Tudo isto em apenas 72 horas. À sua maneira, ele também irá construir um caminho, fará escolhas, sem perder de vista o seu objetivo final. Impressionou-me, neste filme, acompanhar a profunda transformação pela qual passa o casal. E depois, mais distanciada do impacto da sequência de ações (o que é tremendamente emocionante no filme), indaguei sobre os impulsos mais primitivos existentes em nós mesmos, talvez adormecidos, ou aplacados. Quem sabe, em situações mais limítrofes possam vir à superfície...
Se você gosta de um bom thriller, não perca.
Também fui assistir, logo na estreia, ao novo longa-metragem de Clint Eastwood: “Além da Vida” (Hereafter). Já li vários artigos sobre o filme, que tem despertado o interesse de diferentes categorias. Isto se deve, para mim, principalmente em decorrência da qualidade dos trabalhos do renomado diretor versus o tema tão controverso: existe vida após a morte? A trama baseia-se em distintas histórias pessoais que para mim, inspirando-me no filme da Disney, poderiam estar “entrelaçadas”. Como de fato, acredito pessoalmente que façamos parte de uma grande rede. Não gostaria aqui de fazer um contraponto entre crenças religiosas, dogmas e teses científicas. Chamou minha atenção no filme o fato dos três personagens principais, respeitando-se as suas particularidades, estarem de alguma maneira em um momento de transição. Em um período, muitas vezes crucial em nossas vidas, em que precisamos verdadeiramente romper com os velhos costumes e hábitos, vivenciar uma grande pausa, um vazio, uma tragédia, algo insólito, ou aquilo que for necessário para então promover-se uma nova escolha. Que pode derivar em um novo caminho. E demandar significativos desafios. Esta é uma história de vida ou morte. Os personagens do filme vivenciam situações de proximidade com morte, não para aprender a “valorizar” a vida, mas para perceber, ao contrário, que estão mortos nesta existência. E de alguma forma, há que se buscar a ressurreição. Há que se resgatar a vida.
Não deixe de ver.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O caminho de volta para casa


Ainda estou sob a influência dos momentos à beira-mar. E constato que fiquei ligeiramente enlevada e, desde então, estou sob a sua inspiração que tem me feito divagar sobre o tema que escrevo a seguir.
Em momentos de puro prazer, deleite ou entrega de qualquer natureza tem-se a sensação da verdadeira plenitude. É possível esvaziar a mente e deixar que a linguagem da alma prepondere.
Práticas como o yoga e a meditação também nos abrem esta porta para uma gama de percepções - ou a ausência delas – em que, por alguns instantes, é possível desligar-se do mundo externo e do outro e vislumbrar algo único, fugaz. No entanto, a sua ressonância e reverberação irão ecoar em você por muito tempo. Há que se buscar viver mais momentos como estes. “Pequenos samadhis”, diria um professor meu. Vale explicar que samadhi seria o sétimo e último passo do Ashtanga Yoga, e no qual o praticante alcançaria um estado de comunhão com algo maior, que o faria transcender a realidade aparente. Um estado de êxtase pleno e profundo.
Hoje, percebo o quanto deixar-se guiar pelos desígnios da alma pode nos transportar para além daquilo que imaginamos ser. Na verdade, seguir os ditames da alma é viver com leveza, serenidade, intensidade e plenitude a nossa verdadeira natureza. E ela é sábia, pura e conhece o caminho a ser seguido.
Há um pensador inglês que define meditação como o “caminho de volta para casa”. Ou seja, é este retorno para o interior, para o nosso íntimo, para a nossa morada mais profunda que devemos cultivar.
Para mim, sinto verdadeiramente que deter-me em um estado contemplativo, por um pequeno espaço de tempo, diante do mar pode me conduzir de volta para a minha verdadeira essência. Os caminhos são vários, mas chegaremos ao mesmo lugar.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Um reencontro



Passei alguns dias à beira-mar e voltei muito mais próxima de mim mesma. Escolhi uma região tranquila, sem badalações, lojas ou restaurantes da moda. Afinal, para mim, o mar é o mesmo em qualquer lugar do Brasil. O restante é dispensável.
De maneira simples e pura, a experiência me fez muito bem. Permaneci longos períodos diante da imensidão do mar, apreciando a infinitude da linha do horizonte. Vesti-me com simplicidade, andei descalça na areia, deixei o carro no estacionamento e fiz muitos passeios a pé. Percebo que estas são práticas pouco usuais nas metrópoles, mas que nos permitem "pequenos ensaios de liberdade". E, francamente, olhar para o céu e para o infinito em meio à aglomeração de prédios, carros e pessoas, nas grandes cidades, tornou-se uma tarefa praticamente impossível. O mais triste é que nos acostumamos a esta rotina, a este modo de vida que nos afasta da natureza, da vida mais simples. E nos aprisiona.
Li no jornal que nos dias que se sucederam ao Natal, as praias foram invadidas pelos "gadgets" recém-adquiridos. As pessoas não conseguiram se desligar de seus celulares e i-pads, em plena areia. Uma pena perder a oportunidade de interagir verdadeiramente com o mar, com o céu, com a areia e com todos os seus cheiros, sons, cores e sensações.
Nas noites, senti vontade de reler um livro que sempre me estimula positivamente. Chama-se O Labirinto da Felicidade, de Alex Rovira e Francesc Miralles. A obra é muito simpática e prazerosa de ler. Tem um "quê" de fábula contemporânea recheada de elementos clássicos dos livros de autoajuda. Mas tem um algo a mais. Adoro fazer a sua releitura, periodicamente. Sempre extraio dele novos aprendizados. E, é significativo perceber que estou sempre me esquecendo do final da história. Ou seja, por isto preciso sempre tê-lo à mão. Se você já tiver lido o livro irá entender o que estou dizendo.
Para mim, a narrativa das descobertas da personagem central, que se chama Ariadne, conduz você a um encontro ou a um reencontro consigo mesma. Parece um propósito audacioso. Mas não o é. É simples. Assim como é singelo o conteúdo do livro.
Que bom que o reencontro com o mar e com toda a sua magnitude e mistério, possibilitaram um resgate comigo mesma.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um feminino dilacerado


Acredito que muitas vezes o nosso destino já esteja delineado há muito tempo. Tanto em decorrência de nossas ações pregressas (em vidas passadas, para aqueles que acreditam nesta possibilidade de existência), quanto a partir das trajetórias vividas ou não por nossos ancestrais.
Minha afirmação está embasada em experiências próprias e muito particulares, que fui colhendo ao longo da vida, a partir de meus aprendizados pessoais e por intermédio do contato e interface com os relatos e experimentos de outras pessoas.
Não pretendo aqui assegurar que o nosso amanhã seja inescrutável, imutável. E que sobre este exerceríamos pouca ou nenhuma influência. Na verdade, ao contrário, gostaria de sugerir uma análise, uma avaliação contínua sobre o quanto utilizamos o nosso poder pessoal, a nossa capacidade de ação para intervir em configurações previamente estabelecidas e ajustadas, e sobre as quais paira uma expectativa de adequação, conformação. Como se a manutenção de um padrão sustentasse o fio condutor de uma longa história que, de tempos em tempos, repete-se ou reafirma-se. E romper este ciclo pode significar a impermanência desta biografia e a sua provável morte.
Há que se pensar na outra possibilidade: a ruptura, a descontinuidade.
Toda esta reflexão pessoal foi suscitada após assistir a “Vidas que se cruzam” (The Burning Plain), de Guillermo Arriaga. O filme me colocou diante de histórias de profunda dor, desamparo, solidão e mutilações. Cicatrizes que foram perpetuadas por mulheres de diferentes gerações. Infelizmente, por não conseguirem se desvencilhar desta sina, mergulharam em uma espécie de feminino desfigurado e, por vezes, completamente dilacerado. Mulheres que fogem de si mesmas e por isto se desencontram e se tornam meros transeuntes na vida. Seguidoras de um script que não lhes pertence e cuja autoria perdeu-se em um passado longínquo.
O filme é belíssimo, apesar da temática muito árdua. Vale assistir e se permitir questionar sobre qual é o nosso papel no mundo. E qual é o caminho que queremos seguir. Ser autora, roteirista e intérprete de sua própria vida; ou viver para cumprir papéis que lhe foram outorgados por outrem.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Pequena felicidade


Concluí, hoje, a leitura do livro de contos: O tempo envelhece depressa, do autor italiano Antonio Tabucchi, e gostei muitíssimo do que li. É a primeira vez que leio algo dele e me senti entusiasmada pelo estilo de sua escrita, muito particular e intencionalmente apropriada no que diz respeito ao tema do livro: o tempo. Por vezes, a descriçao das cenas, dos diálogos, ou dos pensamentos fluem sem interrupção. Sem uma pausa, sem a necessidade de um novo parágrafo, por exemplo. Em outro momento, por intermédio de uma breve e singela descriçao de um instante, é possível captar toda a potencialidade de uma imagem, de uma ação, graças a uma síntese de centenas de palavras. E aí reside toda a magia do processo çriativo da escrita, que ora requer um burilamento dos vocábulos, ora "brinca-se" com os próprios recursos que os fundamentos da literatura nos oferecem.
Particularmente, encantei-me com o último conto denominado Contratempo. O título, em si mesmo, já dá pistas sobre aquilo que escritor pretende refletir, ou seja, o tema da atemporalidade, nas dimensões do passado, presente e futuro. Na concisa narrativa, surgem vários elementos que irão fomentar esta discussão em torno do tempo. E, em minha opinião, considero que o autor italiano adote um caráter de suspense, ao elencar memórias, lembranças, fotos etc. Além de reminiscências de um passado, que por vezes mescla-se a um futuro, em situações que remetem a um dejá vu, provocando o leitor a reler o conto várias vezes para melhor comprendê-lo.
E, foi diante desta miríade de situações e paisagens, que encontrei a descrição de uma bela cena pela qual fiquei verdadeiramente impactada. O personagem do conto desembarca em Creta, na Grécia, aluga um automóvel e decide seguir o seu percurso por uma estrada à beira-mar. Diminutas e precisas são as informações. Outrora, esta regiáo grega fora dominada pelos turcos e em outra época pelos venezianos. Assim, este homem decide parar por um instante em um bar e pedir um café turco e um sorvete de limão. E a este espaço de tempo destinado ao seu deleite, a um não fazer nada, a desfrutar de um momento que reúne todo o manancial histórico quase arqueológico de uma civilização, ele chama de pequena felicidade. Daí todo o meu encantamento e êxtase. Estar disponível e aberta para vivenciar e presentificar de forma integral e verdadeira um instante. Li e reli várias vezes o conto, mas confesso que detive-me demoradamente neste trecho da estória com a intenção de "degustar", apreciar itensamente aquilo que foi escrito. Como se desta forma eu pudesse ficar impregnada desta passagem...
Amanhã, regressarei a São Paulo. Aqui, em Águas de Lindóia, felizmente, pude viver pequenas felicidades. A imagem que ilustra este post era o meu cenário particular ao ler este livro.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Viver um instante

Com a proximidade do término de um ano, em termos cronológicos, paira no ar uma atmosfera de "fechado para balanço".
Crio suposições acerca de toda a carga de pensamentos que se avolumam em torno de tudo aquilo que foi feito ou deixado de fazer. Os pesares, os arrependimentos e os esquecimentos. As conquistas, os ganhos e os progressos. As dúvidas, as inquietações e as perdas. Os experimentos, as inovações e as mudanças. Todo este pensar e refletir coletivos de alguma maneira, a meu ver, ganha um formato e se corporifica, tornando-se uma entidade também grupal, tamanha é a pressão do todo para que vibremos nesta direção. Explico-me melhor.
Recebemos mensagens originárias de diferentes remetentes: amigos, bancos, lojas etc. No entanto, os conteúdos muito se assemelham. Há uma tendência atual de minimizar os sofrimentos e as mazelas, que porventura tenham sido vivenciados, e sobrevalorizar as aquisições futuras. Depositando-se, assim, uma exagerada expectativa no amanhã. Como uma gangorra, ora somos convidados a fazer o "check list"do ano que se esvai; ora somos incitados a elaborar uma lista de projetos vindouros. E se conjecturarmos que todas as pessoas ao nosso redor também estejam sendo arrastadas por esta oscilação, perdemos a oportunidade de seguir o fluxo natural da vida, acabando por nos perder no mar da inquietação e dos desejos coletivos. Deixamos, talvez, de apreciar a beleza de uma flor disposta em um arranjo de uma mesa natalina. Acabamos por não estar atentos em uma conversa informal com um colega de trabalho em uma festa da empresa. Evitamos nos emocionar no último dia de aula de nosso filho. Renunciamos, enfim, a todas as chances de estarmos presentes e de viver cada instante de nossas vidas, já que as algemas do passado e a sedução do futuro parecem muito mais convidativas.

Sobre o feminino

Cá estou, em Águas de Lindóia, lugar para aonde migramos sazonalmente, em busca de sossego e bem-estar. Como não poderia ser diferente, vim acompanhada de meus livros. Escolhi exemplares apropriados para períodos de férias, aqueles que contemplam conteúdos menos densos e proporcionam uma leitura mais ligeira. O primeiro deles: O clube do tricô, da canadense muito norte-americana Kate Jacobs, escolhi por acaso em uma visita despretensiosa à livraria da Vila da Fradique Coutinho. Não sei se o mesmo acontece com você, mas para mim, há livros a serem comprados em livrarias específicas. Na Cultura, por exemplo, vou sempre em busca de algo pré-determinado, previamente pensado e escolhido. Na Saraiva e na Livraria da Vila, as compras são de caráter aleatório, mais descompromissado. O que pode reservar boas surpresas. O mesmo pode-se dizer da Fnac.
Em dois dias, pude ler as 439 páginas do romance e mergulhar fundo na história de várias mulheres, de diferentes gerações e distintas percepções de mundo. Todas, de alguma forma, estavam entrelaçadas pelas tramas de um trabalho de tricô. Como se assemelhando à grande teia da vida. É interessante perceber como as características do feminino se desdobram e se replicam em várias culturas e sociedades. Há algo intrinsecamente típico da feminilidade que se mantém vivo e que pode ser reconhecido e perpetrado ao longo dos tempos. Mas falo de algo muito íntimo e pessoal. Temas muito particulares e próprios que se autosustentam e sobrevivem às revoluções históricas, às impactantes mudanças culturais, aos modismos e às tendências. E seus rastros podem ser seguidos em manifestações artísticas, principalmente aquelas produzidas pelos próprios punhos de mulheres. Feminismo à parte, trato aqui da atitude verdadeira de entrega e visceralidade que um livro, uma escultura ou uma pintura exigem.
E, para mim, as grandes obras de arte, as imortais, têm em si esta vocação (além de um destino), a de convidar a humanidade a sorver um pouco de sua própria fonte de beleza, sabedoria, espiritualidade e autoconhecimento.
O livro O clube do tricô, não é uma obra-prima. Na verdade, aproxima-se mais de um bestseller; no entanto, possibilita bons momentos de reflexão. Vale ler.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Além das fronteiras


Impressionou-me enormemente o filme argentino “Abutres”. O tema é bastante inóspito e raro nos cinemas. Trata-se de um olhar particular sobre a vida das pessoas envolvidas no lucrativo negócio de processos, movidos contra as seguradoras de automóveis, em decorrência de acidentes com vítimas. Há toda sorte de situações. Assim como diferentes são os personagens.
No entanto, despertou a minha atenção a atmosfera angustiante, sem sentido e sem rumo presente na vida das pessoas. Muitas delas se assemelhando a zumbis, passando pelas situações sem esboçar sentimentos, reativamente ou "sonambulicamente".
Por curiosidade, busquei o termo abutre na Wikipédia e resgatei uma informação esquecida por mim. Sabidamente, abutres são aves de grande porte “que se alimentam de restos orgânicos (plantas e animais mortos)”, porém vale frisar que eles os reciclam e os retornam “à cadeia alimentar para serem reaproveitados pelos demais organismos vivos”. Assim, é preciso observar que os abutres fazem o “trabalho sujo” para manterem os demais seres vivos.
Ao assistir ao filme, a sensação que tive era a de me deparar com um mundo paralelo, muito próximo da criminalidade, da marginalidade e da exclusão. Porém, ao distanciar-me do tema em si, que permeia o filme, é possível resgatar as pessoas e suas histórias pessoais. Na verdade, o que o filme revela é a realidade por trás dos múltiplos mundos simultâneos existentes em nossa sociedade e sobre os quais não nos damos conta, não temos referências ou, muito provavelmente, buscamos rejeitar ocultando-os.
Questiono-me, então, sobre qual o papel que desempenhamos na vida. E sobre qual é a nossa percepção sobre tudo aquilo que há ao nosso redor. E concluo que seja imprescindível ampliar a nossa visão de mundo para além dos muros de nossos jardins. Para além das fronteiras de nosso conhecimento.
Não perca o filme.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Uma pausa


Há dias que venho me sentindo verdadeiramente embotada e não consigo me dedicar à prazerosa atividade de escrita para o meu blog. Várias poderiam ser as justificativas para este acontecimento. As festividades de final de ano que nos impõem um ritmo frenético de comemorações e despedidas (por vezes intermináveis). Amigos e familiares ansiosos por encontros apressados com o pretenso propósito de celebrar o ano que está findando. E se todas estas situações se potencializam na cidade, há que se refletir também sobre o caótico trânsito a que devemos nos submeter.
Mesmo em meio a este turbilhão de eventos, encontrei um tempinho para ir assistir ao filme documentário José e Pilar, que retrata um período recente da vida do escritor português José Saramago. E fiquei muito surpresa. Eu não tinha informações prévias sobre sua esposa Pilar e fiquei estarrecida diante de sua postura sempre autoritária, manipuladora e arrogante. No filme, Saramago já tem um pouco mais de oitenta anos e, por determinação de sua esposa, vive cotidianamente um périplo: percorrendo aeroportos, concedendo entrevistas, dando autógrafos, participando de premiações. Raros são os momentos em que ele pode sentar-se diante de seu computador e escrever.
Somente quando adoece, o autor retoma o seu contato com a escrita. Como um refúgio, um oásis. Um grande momento de libertação. Um exercício de si mesmo totalmente desvinculado de ações práticas, corriqueiras e dos tão enfadonhos “compromissos”. E, felizmente, Saramago consegue concluir seu livro “A viagem do Elefante”, de cunho autobiográfico e sempre embasado em grandes alegorias e epopéias, bem ao estilo do escritor luso.
Ainda não li o livro, mas já o incluí em minha lista. Porém, ainda me pergunto por que Saramago sucumbiu a esta rotina avassaladora. E por que eu, também, fui arrastada por esta corrente.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Uma vida, uma mentira


Por que as pessoas insistem em repetir fórmulas e modelos plagiados de trajetórias de terceiros, sem nenhum significado subjetivo e, obviamente, descolados de sua própria vida pessoal? Falta de autoconfiança? Sentimento de menos-valia? Total desconhecimento de sua verdadeira natureza?
Ao elencar estas possibilidades, pude sentir e visualizar a figura de uma espiral, sem grandes platôs, ora se assemelhando a um tufão ora se configurando em uma queda de um precipício. Talvez sejam estas as emoções vividas por aquele que está ausente de si mesmo e sucumbido ao outro. Ora falta-lhe o ar, a respiração está mais curta, os níveis de estresse e ansiedade altíssimos. Como um furacão, destrói tudo a seu alcance. Ou então, por outro lado, sente-se deprimido, desfalecido, sem energia. Isolado, em silêncio e com vontade de dormir, apenas. Em queda livre.
Talvez por pura sincronicidade, estas questões estavam muito presentes, dentro de mim, quando fui assistir ao recente filme de Woody Allen: “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”. Para alguns críticos e espectadores, o filme foi considerado um tanto melancólico, e, portanto “negativo”, por apresentar diferentes histórias que convergem para o mesmo núcleo: fracasso, tédio, desesperança, solidão, traição.
Eu, pessoalmente, gostei muito do longa-metragem pela oportunidade que Allen nos oferece de vivenciar as mentiras adotadas por cada personagem e as estratégias, por eles escolhidas, para a manutenção destas condutas. Instaura-se, assim, uma grande ilusão de estar vivo. Como se fosse um bando de espectros ambulantes, porém, voltados para as expectativas do outro e para o outro. E de forma bem humorada e até mesmo ácida (predicados típicos do cineasta), ao longo do filme os personagens podem trocar de atributos e experimentar o tão sonhado “outro lado”. E a conclusão a que cheguei é a de que ainda permanece a sensação de vazio, de incompletude.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Um legado para o futuro


“Cada um representa um pedaço de um agrupamento maior.” Esta frase foi pronunciada, de uma maneira muito emocionada, pela coordenadora da escola em que meu filho cursa o 2º ano do ensino fundamental. E o momento do discurso não poderia ser o mais apropriado: uma apresentação musical das 150 crianças da escola para seus familiares, reunidos em uma singela celebração para eternizar o término de um ciclo, já que, em 2011, os alunos serão reunidos em novas turmas em outra unidade da escola.
Para nós, pais, foi tocante encontrar as crianças sentadinhas nos degraus do pátio, ansiosas pela nossa chegada. Todas estavam vestidas com camisetas estampadas com a foto da produção artística elaborada, em grupo, por cada classe, como se fosse um trabalho de conclusão de curso (uma grata surpresa para nós).
A nova mescla de crianças já sugeria as futuras composições a serem feitas, como diferentes rearranjos e possibilidades. E, foi a partir dessa inédita grande composição, que pude captar a beleza e a importância de um rito de passagem. Cada criança, cada pequeno ser trazia estampado no peito o seu próprio legado. Uma maneira simbólica de representar toda a trajetória vivida por cada um deles.
Aliás, a meu ver, este era o escopo conceitual por trás de toda a iniciativa da escola, já que a apresentação musical encerrou uma manhã de brincadeiras e atividades típicas do período escolar pregresso das crianças. Como se elas pudessem voltar no tempo, entrar em contato com momentos importantes de suas vidas, e de forma serena e amadurecida encerrar um período. Como estes momentos são significativos em nossas vidas! Ter a feliz oportunidade de viver a vida intensamente, etapa por etapa. Concluindo ciclos e abrindo espaços internos para o novo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A ausência da palavra


Qual o destino daquilo que não foi falado? Para onde vai o não-verbalizado, o não-expressado?
Não pretendo, aqui, enveredar pelos caminhos da psicologia - temática na qual não sou especialista -, mas reconheço o poder do inconsciente, dos arquétipos e da riqueza psíquica dos sonhos, como sendo gigantescos receptáculos de nossas naturezas mais íntimas. Por outro lado, tampouco, gostaria de resvalar no compêndio da auto-ajuda, tão difundida; ou me deter nos meandros da medicina energética, e discutir sobre a força das afirmações, ou sobre os campos vibracionais que se instituem a partir das emoções reprimidas.
Prefiro, na verdade, inquirir sobre qual seria este lugar a que se destina toda e qualquer palavra não dita. Sem pretensões teóricas de qualquer natureza, portanto, ouso especular sobre a existência de espaços internos e externos capazes de abrigar as declarações não proclamadas.
É sensato afirmar que as palavras denotam ou reúnem em si mesmas emoções e sentimentos. Porém, há uma propriedade intransferível e particular de cada vocábulo. Algo inerente ao seu caráter primevo e que tem a mesma força e a beleza de um símbolo, ou de um ícone. E estes subsistem há séculos, por neles estar contida a qualidade da imortalidade e da atemporalidade, o que predispõem ao desenvolvimento de uma capacidade intrínseca de transcender a situação ou o contexto em que foram constituídos. Há símbolos que permanecem e nunca deixarão de existir.
Para mim, o mesmo ocorreria com as palavras. E, talvez neste momento, eu possa retomar minha indagação inicial. Percebo que aquilo que não foi dito adquire uma forma e um contorno, naturalmente não palpáveis, além de conquistar uma vida própria ao apresentar uma pulsação. Como se fosse uma entidade. Sendo algo não revelado, por afinidade, aproxima-se da atmosfera do oculto, do mistério e do segredo. E porque não dizer do tabu. Todos estes temas também integram, de forma relevante, as diferentes civilizações. Mas o que falar sobre as relações humanas? Como o discurso suprimido, ou a omissão consciente repercute sobre vida?
Como exemplos contundentes, para mim, afirmaria, em primeiro lugar, que durante a segunda guerra mundial, um enorme SIM pairava sobre as cidades alemãs e adjacentes, nas quais foram aprisionados os judeus em campos de concentração. Em outra conjuntura, o prolongado encarceramento de Nelson Mandela, na África do Sul, ressoou um inabalável NÃO ao regime do Apartheid. Os desfechos destes dois momentos históricos cruciais foram radicalmente diferentes. No entanto, deles podemos inferir o potencial das palavras que não foram pronunciadas.

domingo, 28 de novembro de 2010

O desafio da singularidade


Descobrir a origem primitiva de uma palavra...
Como pode ser um feito especial. E, a partir de um primeiro significado, buscar retomar o percurso que o vocábulo perpetrou ao longo do tempo e de sua história. A palavra pode ter se originado em outra cultura ou civilização e, sorrateira ou abruptamente, despertar em outro lugar, em um novo contexto e até sob um novo significado. Há que se levar em conta a intervenção do humano, que se apropria de um termo e lhe confere um determinado status. Há também que se observar o seu tempo de existência. Existem palavras que resistem ao tempo, mas à custa de uma mutação em seu sentido inicial. Há aquelas que, por serem fiéis à sua definição original, caem em desuso frente a uma avalanche de novas palavras que se sobrepõem por força dos apelos da mídia, da prevalência de novos modelos comportamentais, modismos e afins.
Li um artigo “O DNA da língua”, de Ruy Castro, na Folha de São Paulo de domingo, 28 de novembro de 2010, que me levou a fazer esta breve reflexão. O talentoso escritor nos sugere a leitura, de forma apreciativa (como se estivéssemos diante de um romance) de dois novos dicionários da língua portuguesa recém-lançados, um etimológico e outro de expressões populares. De antemão, já encomendei os meus exemplares, cativada pela rara oportunidade de ampliar meus conhecimentos sobre as palavras, sob uma ótica investigativa (que pode vir a se aproximar de um tema “noir”), ou de acordo com uma visão arqueológica, antropológica, ou quem sabe até de uma forma mais fantasiosa, como se fosse um típico contos de fadas.
E continuo a ponderar sobre esta questão. Querer estudar a origem das palavras pode ser algo prazeroso e nos conduzir a um processo de aprofundamento sobre conteúdos relativos àquilo que se pretende expressar. Talvez o caminho seja o de transformar o uso da linguagem em uma real forma de autoexpressão, e não um simples ato mecânico de repetições de palavras e fórmulas desgastadas, porém aceitas e reconhecidas pelas pessoas, pelo grupo de convívio, pela sociedade. E vale dizer que acredito que a intenção, por trás desta nova ação frente ao discurso, à fala propriamente dita, deve, a meu ver, revelar uma singularidade, uma distinção muito pessoal. Isto significa buscar um sentido verdadeiro para aquilo que se pretende dizer, de forma cuidadosa, sem estereótipos, algo muito próprio e característico de cada um. E, em um tempo em que ser autêntico implica um desafio, vale a pena correr o risco de resgatar a sua essência, a sua própria origem etimológica.
Para quem se interessou pelo artigo de Ruy Castro e pelos dois livros, seguem as dicas:
Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha, Lexikon/Faperj.
Dicionário de Expressões Populares da Língua Portuguesa, de João Gomes da Silveira, WMF Martins Fontes.

sábado, 20 de novembro de 2010

Uma roda-gigante

foto: Wim Wenders

Pude visitar a exposição de fotos do cineasta alemão Wim Wenders, em cartaz no Masp, em São Paulo, e para mim foi tão significativa que tive o desejo de escrever um conto sob sua inspiração. Ao longo do processo de escrita, pude experimentar uma importante revelação, algo inédito para mim. Abaixo, transcrevo o conto.

Foi em uma tarde cinzenta de domingo que Clarissa decidiu ir ao Museu de Arte de São Paulo, para visitar a exposição de fotos do cineasta Wim Wenders. Ela não era uma exímia conhecedora de suas obras, mas havia assistido aos seus filmes Paris, Texas e Asas do Desejo e destes ainda mantinha, em sua memória, algumas reminiscências.
Desde o período em que cursava a faculdade de jornalismo, seu interesse pessoal pelas artes visuais sempre esteve voltado, particularmente, para a pintura, o que tornava menos usual o seu contato com mostras fotográficas. Mas, ao se deparar com uma cena apresentada em uma fotografia, Clarissa certamente buscaria vivenciar o instante captado pelo olhar do fotógrafo. E ela ousaria ir além. Ela se sentiria incitada a desnudar a intenção do profissional, como se ela pudesse desvendar o mistério que revestiria a imagem. E isto a fascinava.
Seu entusiasmo, por conhecer as fotos do autor alemão, também fora suscitado a partir da temática dos trabalhos reunidos como: Lugares, Estranhos e Quietos. Estes eram contextos de certa forma conhecidos para a mulher que ela se tornou, aos 35 anos, descasada, sem filhos, e que já havia viajado por muitas cidades, em diferentes países. Sempre em busca de seu lugar próprio. De sua verdadeira vocação. Nesta trajetória, por vezes, ela pôde experimentar momentos de quietude e de solidão, permeados por conflitos e estranhamentos.
É verdade que, para Clarissa, o contato com as várias manifestações artísticas, de uma maneira geral, delineava um certo modo de estar no mundo. Por muito tempo, ela colheu, do mosaico cultural mundial, diferentes conhecimentos que a ajudaram na consolidação de seu caráter e na revelação de seu mundo interior. Por intermédio da expressão do artista, foi possível legitimar a sua autoexpressão e a sua consequente visão de mundo.
Sua ida ao MASP, naquela tarde, ainda fazia parte deste cotidiano. Era uma espécie de ritual que a fazia se sentir viva. E que a inspirava para a vida.
Ao percorrer as poucas salas da mostra e ao contemplar as imagens, Clarissa reconheceu na predileção do autor por paisagens desertas, desabitadas e vazias, uma intencionalidade. Como se Wenders, propositadamente, almejasse registrar uma imagem capaz de capturar uma atmosfera muito peculiar da espera, da expectativa. Ela o imaginava com a câmera nas mãos, ansioso, aguardando o momento ideal para representar o nada, a ausência, o vazio. E, para ela, havia uma ressonância destas cenas em sua própria vida pessoal, que em muitos momentos esteve à deriva e que, ultimamente, clamava por um momento de pausa, para que algo novo pudesse emergir.
Ao mesmo tempo, as fotos também buscavam representar o estranho, o inusitado e se esgueiravam por caminhos por vezes pouco usuais, espaços completamente desertos, inabitados, ou à espera de uma ocupação. Para Clarissa, na medida em que admirava as fotos, muitas delas em grandes dimensões assemelhando-se a quadros, ela pôde vislumbrar a síntese por traz da lente do artista. Uma comunhão capaz de representar o profundo silêncio existente no interior de certos lugares, por ora de natureza bizarra; por vezes quietos em decorrência da ausência de vestígios da civilização contemporânea humana e, em algumas ocasiões, localizados no ínterim destas duas condições.
Foi, seguindo os seus instintos mais primitivos e possivelmente o seu imaginário, que ela se posicionou diante de uma foto que retratava uma região de moradias populares da Armênia. O elemento central da imagem era uma imensa roda-gigante, notadamente inoperante e abandonada em uma área extensa e vazia. De um ângulo da foto, avistava-se o enorme brinquedo. De outro, alguns prédios e casas sem a presença de pessoas. Inevitavelmente, ela passou a conjeturar sobre as várias situações inerentes a esta cena. Que lugar seria este? A região teria sido devastada por uma guerra? Há quanto tempo o brinquedo teria sido desativado? Qual o impacto da ausência da diversão para a população?
Imersa nestes pensamentos inquietantes, ela seguiu o caminho de volta para casa, sentindo-se levemente excitada por construir um significado e um possível desfecho para aquele cenário ainda inconcluso em sua mente. Em sua trajetória, ela passou por esquinas, atravessou cruzamentos e por vezes até esbarrou em pessoas, porém nada a resgatava de seu mundo interior mergulhado em fantasias e especulações.
Deteve-se em imaginar a magnitude da perda para os habitantes daquela região. Outrora alegres e festivos. Agora, pairando sobre eles uma atmosfera de destruição, de abandono e de tristeza. E a roda-gigante deteriorada simbolizaria toda a incapacidade de reação dos homens, mulheres e crianças daquela vizinhança, frente ao medo, à incerteza, a algo extremamente ameaçador. A impossibilidade da diversão seria uma conseqüência direta da resignação daquelas pessoas. Como se o direito à felicidade lhes tivesse sido arrancado precocemente. Como uma plantinha ao ser colhida antes do amadurecimento. Como abrir um botão de rosa com os próprios dedos. E, desta forma, os habitantes daquela região longínqua seriam incapazes de reconhecer neles próprios uma fonte de felicidade.
Neste limiar, Clarissa experimentou um lampejo de sua infância. Muito próxima de sua casa, também existiu uma roda-gigante, que um dia fez parte de um modesto parque de diversões. O extenso terreno também fora ocupado, em algumas oportunidades, por um circo. Às vezes, tornava-se baldio servindo como pasto para cavalos dos carroceiros. A imagem da enorme roda-gigante era algo familiar para ela. Provavelmente, apenas neste momento, ela pôde se aproximar da realidade daquele povo da cidadezinha da Armênia. Talvez, somente agora ela conseguisse sentir os cheiros, ouvir os sons e visualizar as cores e luzes tão características de um parque de diversões. E ela também conseguiu reconhecer e sentir a reverberação mais íntima da perda de um parque de diversões. E, então, Clarissa novamente sentiu a solidão tão própria deste imenso silêncio inescrutável que caracteriza o abandono e o desamparo.
De uma maneira instintiva, livre e muito libertadora, Clarissa respirou longa e profundamente e decidiu que, no dia seguinte, ela buscaria uma nova exposição. Talvez desta vez, procurasse se entregar à contemplação de quadros de Madonas. E como se fosse uma nova oportunidade, encontraria nos símbolos, nos ícones, nas cores, no indizível, um alimento para a sua alma. Há muito tempo, ávida por um contorno e prenhe de uma completude. E continuaria a sua jornada em busca de si mesma.

sábado, 13 de novembro de 2010

Para alimentar a alma

"Le don de Pacha Mama (de la Madre Terre), violence et pillage (Huaman Poma de Allala, Velazquez, Goya, Picasso)", acrílico sobre tela
Herman-Braun-Vega, 2010

Se você aprecia obras de arte, reserve um espaço de tempo em sua agenda para ir à exposição do artista peruano Herman-Braun-Vega, no Memorial da América Latina, em São Paulo. É imperdível.
É uma mostra pequena, em uma grande galeria, o que lhe permitirá estudar com afinco cada quadro. Aliás, sinto que esta seja a proposta do pintor, ele mesmo, um grande estudioso das obras dos espanhóis Velazquez, Goya, El Greco, Picasso e também dos principais autores dos “ismos”, movimentos artísticos do início do século 20. Dentre eles, Monet, Manet, Cézanne, Van Gogh, Matisse entre outros.
Fui instigada a ir à mostra, em primeiro lugar, pela minha verdadeira paixão por pintores espanhóis. E, igualmente, por saber de antemão que o autor peruano desenvolve uma linha de trabalho que procura localizar pontos de confluência entre diferentes artistas, suas obras amplamente conhecidas, e temas político-sociais contemporâneos, quer sejam latino-americanos ou mundiais.
Ao conhecer de perto suas obras (inéditas para mim), pude perceber a grandiosidade do seu feito. O artista vai muito além de uma simples releitura de obras consagradas. Ele nos propõe uma reflexão viva e intensa sobre diferentes temas, reunidos em um mesmo quadro, sob a inspiração de vários mestres da pintura e mediados pela visão conceitual do próprio pintor e também do expectador, você. E a temática por ele escolhida é bastante engajada e contempla pontos como a religiosidade, a discriminação social, a violência, a diversidade cultural, o poder político, a manifestação artística e outros que você puder detectar.
Se você se interessou em visitar a exposição, aproveite para visualizar o belíssimo catálogo da mostra, à disposição no site do pintor. Desfrute também da entrevista, por ele concedida à curadoria da mostra, e conheça um pouco melhor a trajetória pessoal de Braun-Vega, seus pensamentos e suas impressões.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O risco de florescer

Durante o show musical de abertura da Copa do Mundo de Futebol da África do Sul, pude ter um primeiro contato com a cantora e compositora Alicia Keys. Confesso que, naquela oportunidade, fiquei muito mais deslumbrada com as apresentações folclóricas, de danças e de costumes tribais africanas. Porém, algo ficou em meu imaginário. Recentemente, em uma visita à FNAC, deparei-me com o último álbum da artista. O tema do cd seduziu-me imediatamente e me propus a ouvi-lo. Após a audição, não resisti e o comprei. Seu título: The Element of Freedom. Tornou-se o meu cd favorito, atualmente. Nele, há uma mescla de ritmos que te convidam a dançar, a cantar e a escutar em alto volume e, por vezes, a simplesmente deixar-se levar pela letra ou melodia. Alicia cria as próprias composições e, ao cantá-las, consegue transmitir toda a sua autenticidade, plena de referências ao feminino, e de alusões à força e à beleza intrínsecas à feminilidade.
Se você não resistir, como eu, e quiser ouvir o cd antes do término deste post, acesse: http://www.aliciakeys.com/us/home
Mas, sem perder as minhas características investigativas e racionais, bem pessoais, também fui fisgada pela citação que abre o cd. De alguma maneira, já conhecia a frase. Não pude reconhecer a referência, tampouco o nome do autor. Na versão em inglês, a cantora diz: “And the day came when the risk to remain tight in a bud was more painful than the risk it took to bloom”. Na minha tradução livre: E chegou o dia em que o risco de permanecer apertada em um broto (botão) era mais doloroso do que o risco necessário para florescer. Significativo, não é mesmo? Não dá para não meditar a respeito. Senti uma ressonância forte dentro de mim. E ainda estou fazendo elaborações muito íntimas sobre este pensamento. Para mim, tem sido uma experiência simplesmente empolgante. Talvez, neste aspecto, resida a familiaridade, o espelhamento. Pura sincronicidade.
A partir de minhas pesquisas, descobri também que a frase compõe o subtítulo de um livro chamado “Journey to Wholeness”, da californiana Barbara Marie Brewster, infelizmente, não publicado no Brasil. Ele retrata a história real da autora que, ao descobrir ser portadora de esclerose múltipla (uma doença grave e degenerativa, muitas vezes letal), decide desabrochar e não mais ficar apertadinha em um broto. Ela optou pela expansão. Isto foi em 1984. Desde então, ela percorreu o mundo. Tornou-se uma “clown”, sendo membro do grupo Patch Adams; trabalhou como voluntária em programas para o atendimento de crianças portadoras de HIV na África; é co-fundadora de uma organização que acolhe refugiados; é escritora; atriz, e se intitula também uma sobrevivente.
Vale acessar ao seu site: http://www.barbarabrewster.com/
As minhas buscas não param por aqui. Também encontrei referências à Anaïs Nin, a controvertida poeta, como sendo autora desta frase. Porém, os resultados ainda são incipientes. Quem sabe, em outra oportunidade, eu possa trazer mais “elementos de liberdade”.
foto de Reislanes in: http://digiforum.com.br/portal/

domingo, 31 de outubro de 2010

A escolha pela vida

Nos últimos dias, vivi experiências de doenças e de morte entre familiares e amigos, que me conduziram a momentos de introspecção e de reflexão. A minha formação religiosa, a minha fé e as minhas crenças me possibilitam lidar com o limiar entre a vida e a morte de uma forma mais sustentada. E, de maneira consciente, consigo acompanhar estas situações com a necessária capacidade de discernimento.
No entanto, diante destas circunstâncias, sou quase sempre impelida a ponderar a propósito das diferentes atitudes, que escolhemos adotar ao longo de nossas vidas, quanto ao cuidado pessoal. Talvez, em decorrência do meu esforço pessoal profícuo e já bastante antigo, em busca da permanente atenção sobre mim mesma.
E percebo que, muitas vezes, optamos pelo caminho das compulsões, quer seja por alimentos, bebidas alcoólicas, cigarro, e porque não dizer por sexo ou trabalho. Como se houvesse uma inesgotável necessidade de preenchimento. Como se a própria condição de estar vivo não fosse o bastante para manter-se pleno e, consequentemente, inteiro. Como se o enorme vazio interior se transformasse em um monstro predador, sempre à espreita, e ameaçador. E exigisse ser nutrido.
Em outra medida, preferimos nos abastecer de estímulos, por intermédio do uso de drogas, medicamentos, aparelhos eletrônicos, consumo, beleza estereotipada e entretenimento. Este padrão comportamental nos arremessa a um estado de excitação permanente. Capaz de nos manter literalmente ocupados, ligados e diretamente desvinculados de nossa vida interior, plena de conflitos, angústias, mas também de alegrias. Elementos verdadeiramente imprescindíveis para o nosso crescimento pessoal.
E o que dizer sobre as manias, neuroses, hipocondria e preocupações infundadas que nos paralisam e nos embotam. E fazem com que nos sintamos encurralados dentro de nossos cotidianos.
Para mim, deixamos de ser os autores de nossas próprias vidas ao adotarmos estas atitudes. Passamos a ser conduzidos pelo turbilhão de necessidades, as quais não foram geradas por nós, mas pelos outros. E estes podem ser vários, mas nunca nós mesmos.
E aí cabe uma opção. A escolha pela vida e não pela morte. Escolher a vida implica, para mim, um olhar amoroso, corajoso e desprendido por si mesmo. Entender como se organiza o meu corpo. Como reajo frente aos acontecimentos. Quais são as minhas dificuldades e limitações. E, sobretudo, quais são os meus talentos e como criar oportunidades para que eles possam emergir.